O espirito é o mesmo, música punk veloz e imunda, gritada em plenos pulmões, tudo isso em 15 faixas que somadas dão 21 minutos de barulho. Este é daqueles discos que deixam a Maximum Rock N' Roll orgulhosa.
Em suma, aqui temos o tal Handsome (que se não estou enganado, é integrante do Fuck On The Beach), tocando canções pop/românticas em japonês, sendo que a primeira das 4 do cd, "Ano Toki", é uma releitura de "Quando" do Roberto Carlos.
O nível de surrealismo aqui é alto, e o disco vale por isso, uma piada sem compromisso e, pasmem, de alta qualidade pop.
Influências vão desde The Who ou Black Sabbath até Dead Kennedy´s ou Black Flag. Punk rock, rock, hardcore, tudo extremo, executado por músicos muito competentes, cheios de adrenalina e vontade de fazer um show destruidor, como já presenciei várias vezes.
Isto sim é algo que vale a pena conferir, é exatamente a antitese de moleques idiotas, com ar de tristes e mal amados, lamentando o carro novo do papai ou o apartamente de diamante onde vivem. Leptospirose na veia!! Rock marginal!!
A simplicidade e a 'tosqueira' das músicas estão aqui em sua melhor forma, deixando um registro histórico para a posteridade do hc nacional. E quem diria que na época em que estas músicas foram gravadas, estes garotos de vila velha iriam excursionar até no Japão? Pois é, "o mundo dá voltas", já dizia o outro.
São 25 faixas em 23 minutos de disco. Acho que deu pra entender o espírito da coisa né? Rápido, sujo e agressivo. Ainda bem.
A primeira do CD é "Malevo" e seus riffs contagiantes, anunciando que diferente do título do disco, os hermanos se dirigem para um bom caminho, o do stoner rock. Claro que sem abrir mão do background proto-punk & rock and roll, dispensando pirações hippies alucinógenas - ok, algumas, porém mínimas e contidas - e esbanjando a crudeza punk de antes, como marcam "Inocentes", "Automático", "Rencor" e "Fuego".
"Solar" começa lembrando o pique dos velhos tempos, mas uma viagem sonora surge no ar e riffs entortam e entorpecem os então desavisados ouvintes, a transformando em uma das minhas prediletas. "Caliente", "Necesito" e "Piedra" são outras que até carregam o andamento acelerado dos Culpables de antigamente, porém agora trazem um elemento surpresa, que pode ser um dedilhado, um solinho ou uma boa quebrada no tempo.
Se antigamente as músicas não chegavam aos dois minutos, agora o improviso está liberado e "Buscado" passa um pouquinho dos quatro minutos - sem que torre a paciência do agora já hipnotizado ouvinte. Este, a essa altura está querendo mais é se enveredar pelo mal caminho.. e a culpa é deste uruguaios!
Um disco de luxo, com um encarte fantástico, arte gráfica primorosa, encardenam um total de 10 faixas doentias, velozes, recheadas de berros com voz de moleque e pseudo-refrões, uma espécie de "Gaiola" japonês.
Tudo soa muito bem, mas a faixa 4, "We Are Not Punk", extrapola, é de longe a melhor faixa do disco, com uma letra inteligente e contundente à lá "Nazi Punks Fuck Off" do Dead Kennedys. Google it! Ah sim, eu entendi a letra de "We Are Not Punk" pois o bem cuidado encarte trás as letras em inglês e japonês. Master-piece do hardcore/punk japonês, de encher os olhos do editor da Maximum Rock N' Roll de lágrimas.
As canções são basicamente fast-core, mas no espirito oba-oba rola hard rock, ska e o diabo a quatro, para ilustrar o espirito zombeteiro que domina o disco. O álbum é simples e direto, tanto na embalagem quanto no conteúdo, mas sacia os fãs do estilo e mantém o espirito DIY em voga.
A arte é caprichada, o encarte ilustra as referências mais distintas que o Discarga tem, indo de Minor Threat e Fogo Cruzado ao livro "Escuta, Zé Ninguém", escrito nos anos 40 pelo psiquiatra e psicanalista Wilhelm Reich. Isso tudo colocado ao lado das letras, inclusive ao de "A Bomba", livro de Frank Harris, que está acompanhando "Batendo Cabeça" - esta chama atenção pelo modo simples e eficaz que o tema é exposto. Se é da velocidade deles que você gosta, há uma batelada pra te agradar: "Repressão Subliminar" (com uma introdução interessante), "Ilegal", "Processo Sem Retorno" e "Explorar Para Esgotar", por exemplo.
Até quando eles não tocam rápido a coisa fica boa, dá uma escutada em "O Agora", "No Brain, No Gain" e "Somente Mais Um Número", aliás, que guitarra é aquela? "Teor Alcoólico" até começa rápida, mas dá uma alternada, outra que mistura o andamento é "...Livre Então".
O Discarga foge do óbvio e isso fica cada vez mais claro, seja com a participação de Mauricio Takara e aquele final maravilhosamente destoante em "O Porque da Violência...", o discurso ("Hate") de Tahani Salah (quem quiser dar uma conferida no original: clique aqui) ou "Sob Influência". Esta tem a participação de Roger (percussão), Rei Leão (trombone) e Coruja (sax), do Skarrapatos-Ko (www.myspace.com/skarrapatosco), e a as influências de black music (inclusive brasileira!), soul, dub, rap e reggae. Torço pra um dia eles lançarem um álbum só nessa pegada, quem sabe com outro nome, Dubcarga é minha sugestão!
"Música Pra Guerra" - que foi lançado em vinil pela Läjä, Thrashbastard, na Alemanha, e Refuse, na Polônia) - tem ainda um bônus luxuoso, que é a parte do Discarga no split com os espanhóis do H-Zero (www.myspace.com/hzerobcn), que foi lançado pela Mindless Mutant.
O mínimo a ser dito sobre o Discarga depois de ouvir essas 23 faixas é que eles continuam se superando... Dá até medo de imaginar o que vem pela frente!
Este disco me custou vinte dólares, o que é muito, muito mais do que eu normalmente gastaria em um lançamento, mas era somente um em apenas cem cópias e teve de ser especialmente pedido do Brasil. E valeu a pena cada dólar – um som clássico de snotty hardcore feito da forma mais excitante, de maneira frenética, fodidamente contagioso e radicalmente straight-up. Eu adoraria vê-los tocar. Não é genérico ou cansativo, definitivamente não é o tipo de pessoas tentando ser algo que não são, somente o ótimo hardcore ao estilo SoCal. Vindo de alguém que está inteiramente cansada de movimento de revival, eu realmente recomendaria você pegar um disco deste a todo custo.
Na cena crossover, o Alarme é uma banda (impossivel não fazer o trocadilho) que ainda vai ter seu nome soando bem alto.